A garotinha
havia terminado o café delicioso feito pela avó, ela adorava os fins de semana
que passava com ela e com o avô. Não que ela não gostasse dos pais, ela não
sabia explicar, mas era diferente estar com seus avós.
- Vó, quer que eu ajude a lavar
as louças? - Apesar de ter apenas sete anos, ela aprendera com a mãe a sempre
oferecer ajuda, ainda mais quando era sua avó a pessoa a quem ajudar, até
porque ela era sua mãe duas vezes como já haviam lhe dito.
- Não precisa minha linda, pode ir brincar com seu avô. - Ela queria
ajudar, mas ela queria muito brincar com o avô. Na verdade, não era brincar,
pelo menos não como ela brincava com Angélica, Gabriela e as outras meninas da
escola ou da rua. Eles brincavam de imaginar, o avô dizia que eles eram piratas
dos pensamentos, eles viam alguma coisa na TV, ou revista e a partir dela
criavam suas ideias. No início achou que o avô não queria era brincar de correr
ou algo do tipo, e estava tentando enrolar para não ter que... correr ou algo
do tipo. Ela não havia nem chegado à sala quando disse:
- Vovô, já terminei o café, vamos brincar? - o avô não a ouviu, estava
concentrado na TV, que mostrava algum daqueles telejornais chatos, iguais ao
que pai gostava e queria assistir quando chegava do trabalho e ela tinha que
parar de assistir seus desenhos. Como querer trocar desenhos por aquilo? Ela
não sabia.
- Vô? Vovozinho…
Ele enfim a
percebeu ao seu lado, enquanto ele estava naquela enorme poltrona que
certamente caberiam cinco dela, ela imaginou.
- Oi Clarice, meu anjo. Já terminou o café?
- Já sim vovô, comi tudinho. Não foi vovó? Eu não comi tudo? - gritou
ela em direção à cozinha.
- Sim, meu bem, você comeu tudo. - Respondeu a avó com sua voz que
parecia veludo.
O vô
desligou a TV, mas antes disso, Clarice viu algumas cenas que estavam passando,
uma briga entre várias pessoas que ela não conseguiu identificar. Mas achou que
alguns deles eram ninjas por causa dos panos em suas cabeças que deixavam à
mostra apenas seus olhos.
- Vô, porque as pessoas gostam tanto de brigar?
- Há querida - disse ele olhando de relance para a TV e depois para sua
neta de novo - eu queria poder explicar, mas infelizmente algumas pessoas são
assim.
- Sabe, eu queria ter um dragão.
- Um Dragão? - Disse ele, entrando na brincadeira que ela já começara.
Ele tinha inventado essa brincadeira tentando enrolar Clarice, para que não
tivesse que correr ou algo do tipo, mas ela gostou até mais do que ele.
- Sim, um dragão enorme para poder subir nas costas dele e voar bem
alto.
- E o que você faria com esse dragão?
- Pera vô, porque ele não seria um dragão normal sabe, ele teria asas de
borboleta, só que maior claro, se não ele não poderia voar.
- Humm, que interessante, e o quão grande seria o seu dragão Clarice? - perguntou
ele levantando-a e pondo-a no colo.
- Seria enorme, assim.... - ela pensa um pouco, olhando para o teto - do
tamanho dessa casa. Não! seria do tamanho de duas casas dessas.
- E ele seria rápido?
- Mais veloz que aqueles carros de fórmula 1 que o senhor estava
assistindo hoje mais cedo.
- Seu dragão seria formidável querida. E ele cospe fogo?
- Não vô, ele teria outro poder sabe, ele jogaria um um arco-íris, e em
que esse arco-íris tocasse ele iria trazer alegria, felicidade e amor, assim eu
e ele poderíamos ajudar à todos. Para que as brigas acabassem.
O avô fica
um tempo parado, olhando para sua neta ali sentada em seu colo, tão jovem e ao
mesmo tempo tão adulta. Uma lágrima ameaça descer pelo seu rosto, mas ele
consegue enxugar antes da garota ver. Ele sorrir pra ela e ela devolve o
sorriso.
- Porque um dragão e não um unicórnio, sempre achei que você preferia
unicórnios. - disse ele apontando para a estampa da blusa da garota, que mostrava
uma menina em cima de um unicórnio alado enquanto o mesmo voava à frente do pôr
do sol.
- Ah vô, como você é bobo, unicórnios não
existem.
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